Educação Inclusiva e Neurodiversidade: Desenvolvimento Motor e Intervenções para a Aprendizagem.
Abstract
Introdução: Esta dissertação, estruturada no modelo escandinavo, investiga a assincronia
motora como fenômeno central e transversal aos processos de participação, aprendizagem e
inclusão de estudantes que compõem a neurodiversidade, com ênfase nos subgrupos Altas
Habilidades/Superdotação (AH/SD), Dupla Excepcionalidade (2e), Transtorno do Espectro
Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Dislexia. Partese do pressuposto de que a efetivação da educação inclusiva exige a integração indissociável
entre corpo, cognição e emoção, reconhecendo o desenvolvimento motor como dimensão
constitutiva da experiência escolar e da expressão do potencial humano. Objetivo:
Compreender como o desenvolvimento motor e as intervenções corporais podem ser
integrados a práticas pedagógicas inclusivas que respeitem a neurodiversidade e promovam
trajetórias educacionais mais equitativas, oferecendo um referencial teórico-prático para
orientar docentes, gestores e terapeutas na construção de ambientes escolares mais
responsivos e transformadores. Metodologia: A dissertação é composta por três estudos de
revisão de literatura. O Artigo I consiste em uma scoping review que mapeou a produção
científica publicada entre 2008 e 2025 sobre assincronia motora em estudantes com AH/SD e
2e, incluindo 18 estudos. O Artigo II apresenta uma umbrella review sobre intervenções
motoras, psicomotoras e educacionais direcionadas a estudantes com TEA, TDAH e Dislexia,
considerando publicações entre 2015 e 2025, das quais 25 estudos atenderam aos critérios de
inclusão. O Artigo III é uma scoping review baseada em 19 estudos publicados entre 2010 e
2025, voltada à integração entre educação inclusiva, desenvolvimento motor e
neurodiversidade em contextos escolares. Resultados: Os achados indicam que o
descompasso entre elevado potencial cognitivo e habilidades motoras finas e globais constitui
elemento estruturante das trajetórias acadêmicas e socioemocionais, afetando escrita,
autorregulação, participação corporal e bem-estar. Evidenciou-se que dificuldades em
coordenação, planejamento motor, integração visomotora e autorregulação corporal estão
associadas a barreiras de aprendizagem, comunicação e participação escolar. As intervenções
demonstram maior efetividade quando adotam abordagens holísticas e interdisciplinares,
integrando psicomotricidade, educação física inclusiva, terapia ocupacional, estratégias
pedagógicas diferenciadas, metodologias corporais estruturadas, adaptações sensoriais e
suporte socioemocional. Discussão: As revisões identificam convergências conceituais e
lacunas metodológicas na literatura, especialmente quanto à fragmentação entre mente e
corpo nas práticas educacionais e nas políticas públicas. A negligência da dimensão motora
contribui para processos de subidentificação, subdesempenho e exclusão simbólica de
estudantes neurodivergentes. Em contraposição, intervenções corporais sistematizadas
favorecem participação, aprendizagem significativa, autonomia e autorregulação.
Conclusão: De forma integrada, os três estudos demonstram que a assincronia motora
constitui eixo transversal aos diferentes perfis da neurodiversidade, não devendo ser
compreendida como déficit, mas como expressão de trajetórias desenvolvimentais
heterogêneas. Como desdobramento aplicado da pesquisa, a dissertação apresenta o Modelo
Educacional Inclusivo de Integração Corpo–Cognição (MEICC), concebido como um quarto
produto, que sintetiza os achados teóricos e empíricos e oferece um referencial para a
integração entre desenvolvimento motor, práticas pedagógicas inclusivas e suporte
socioemocional. Conclui-se que compreender e intervir na dimensão motora é condição
fundamental para a construção de trajetórias educacionais equitativas, promovendo
desenvolvimento pleno, bem-estar e participação efetiva no contexto escolar.