Monitoramento subjetivo em atletas de futebol: variações afetivas, de carga, monotonia e sono ao longo de um ciclo competitivo
Abstract
Introdução: As exigências físicas e mentais do futebol competitivo, combinadas à alta
densidade de jogos e sessões de treino, impõem um estresse psicofisiológico
substancial aos atletas. Nesse contexto, variáveis subjetivas como respostas afetivas,
percepção de esforço e sono emergem como indicadores importantes, oferecendo
informações adicionais sobre a prontidão e a recuperação dos jogadores. No entanto,
poucos estudos analisaram essas variáveis de forma integrada ao longo de períodos
prolongados de preparação e competição. Objetivos: Investigar os efeitos dos
treinamentos e jogos de futebol sobre as respostas afetivas (valência afetiva e
ativação), percepção subjetiva de esforço (PSE) e duração do sono em atletas de
futebol sub-20. Adicionalmente, avaliar correlações entre respostas afetivas e
variáveis tradicionais de carga interna (PSE), monotonia, strain e duração de sono
autorreferida. Métodos: Este estudo observacional foi conduzido com 21 atletas sub-
20 de uma equipe brasileira de elite durante 11 semanas, abrangendo treinos,
amistosos e competição oficial. As respostas afetivas foram avaliadas antes e 30
minutos após cada sessão utilizando a Feeling Scale (FS) e a Felt Arousal Scale
(FAS). A percepção de esforço (PSE), duração do sono, monotonia e strain foram
registradas diariamente. ANOVA de dois fatores foi aplicada para FS e FAS, enquanto
ANOVA de um fator foi utilizada para carga semanal, sono, monotonia e strain. Testes
de Mann–Whitney (jogo vs. treino) também foram realizados. Foram calculados
coeficientes de correlação de Pearson entre as variáveis. O nível de significância
adotado foi p < 0,05. Resultados: Houve efeitos principais significativos da semana e
do momento (pré/pós) tanto para FS quanto para FAS, com uma diminuição notável
nas respostas afetivas após as sessões (p < 0,0001). A duração do sono aumentou
progressivamente a partir da sétima semana (p < 0,05), enquanto carga de treino,
monotonia e strain oscilaram ao longo das semanas, com reduções significativas no
final do ciclo. Foram observadas diferenças significativas entre jogos e treinos para
carga de treino (p = 0,0333) e duração do sono (p < 0,0001), mas não para as escalas
afetivas. Em nível individual, 71% dos atletas apresentaram redução nas respostas
afetivas após as sessões. As correlações entre afeto e as demais variáveis foram
triviais a pequenas (entre r = 0,11 e r = 0,24), com associações ligeiramente mais
consistentes para sono e PSE. Conclusão: Houve uma redução significativa na FS
ao longo das semanas. As flutuações na FS acompanharam a carga acumulada e as
demandas competitivas, com 71% dos atletas demonstrando diminuição nas
respostas afetivas após as atividades. A monotonia e o strain apresentaram tendência
de queda ao longo do ciclo competitivo, especialmente nas semanas finais, indicando
redução da variabilidade do treinamento e da carga acumulada. Essas reduções
coincidiram com o aumento na duração do sono autorreferido, sugerindo um ajuste
positivo no balanço entre estresse do treinamento e recuperação. Por fim, a FS
apresentou correlações fracas com percepção de esforço, monotonia, strain e sono.